Um dos pioneiros do (pré)modernismo brasileiro, Triste Fim de Policarpo Quaresma esbanja-se numa leitura fluente e simplista, tendo como críticas o nacionalismo ufanista e os aspectos regionais tanto de lugares quanto de pessoas.
O general que nunca viu uma batalha e o contra-almirante que nunca embarcou um navio
Albernaz, o general
Caldas, o contra-almirante
Albenaz e Caldas eram militares que, apesar de gozarem da profissão diante dos civis, não eram merecedores de tais títulos. Com o decorrer da leitura, o caráter superficial de ambos fica nítido. O general preocupava-se apenas em casar as cinco filhas, e o almirante em manter as aparências; os dois defendiam com muito gosto o poder republicano e, durante a segunda Revolta da Armada, mostraram-se a favor do marechal Floriano - mesmo quando o governo denotava-se tirano e cruel
''A revolta da baía já chegava ao fim; toda gente já pressentia isso e queria esse alívio. O almirante e Albernaz, ambos pelos mesmo motivos observavam esse fim com tristeza. O primeiro via fugir o seu sonho de comandar uma esquadra, e o general sentia perder a sua comissão, cujos rendimentos faziam de forma tão notável melhorar a situação da família.''
Não é de se espantar já que, desde o início da República, muitos militares foram beneficiados. Houve uma reorganização geral do exército com objetivo principal de liberar vagas para promoções - uma das principais queixas contras as autoridades imperiais -aumento de 50% dos soldos militares e uma lista de promoções por ''serviços relevantes''[1].
Pobre Ismênia
Outra personagem interessante é a Ismênia, filha de Albernaz, cuja vida baseava-se no ''sonho'' de casar-se. A garota é apática, ''pobre de alma'', incapaz de sentir emoções mais profundas; Lima Barreto declara que, desde pequena, a vida da personagem girava em torno do casamento; com o passar do tempo, Ismênia começou a internalizar aquilo de modo que perdera a vitalidade da juventude.
''A todo instante, lá vinha aquele - 'porque,quando você se casar' - e a menina foi se convencendo de que toda a existência só tendia para o casamento. A instrução, as satisfações íntimas, a alegria, tudo isso era inútil; a vida se resumia numa coisa: casar.''
O autor simplesmente materializou a banalidade com que o casamento era tratado na época. O casamento não era por amor, pela maternidade ou pelo noivo: era pela obsessão, por uma espécie de dever, ficar solteira, ''tia'', parecia um crime.
Abandonada pelo rapaz, o final não poderia ser mais intrigante: morreu no vestido de noiva.
Loucura e Paixão
O encontro com a figura de Quaresma faz-nos subestimá-lo, pensar em delírio e coisas do tipo. A obsessão pelo nacional, os livros, as roupas, as plantas, a madeira e a casa revela-nos um paixão quase que platônica pela pátria... Tive a impressão que o autor coexistia com o personagem. Após um requerimento enviado ao congresso, Policarpo vira motivo de chacota e sofre uma série de decepções que nos obriga a sentir pena do personagem. Pena, principalmente, da sua inocência.
Há uma clara crítica ao nacionalismo, à ufania. Talvez, não sei, o próprio autor tenha sido um patriota e decepcionou-se. Inclusive, nos parágrafos relacionados à convivência no hospício, tem-se um grande apelo ao sentimental como se o autor - realmente- soubesse do que estava falando; e eu não me enganei:
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| Lima Barreto, Hospital Nacional, 1919 |
Ao contrário dos antigos movimentos literários, o pré-modernismo (fase de transição) iniciou uma literatura que se encaixasse à realidade brasileira - e não necessariamente uma cópia da bibliografia europeia - como mais tarde ver-se-á no Movimento Antropofágico de Tarsila do Amaral.
Triste Fim de Policarpo Quaresma expõe-nos ao preconceito, ao clientelismo, ao latifúndio e, principalmente, a uma literatura de renovação.
[1] A primeira e a segunda Revolta da Armada foram organizados por militares que não concordavam com a tirania da nova República. Inclusive, Rui Barbosa, jornalista e um dos principais personagens da ''questão republicana'', foi exilado em 1893.


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