domingo, 24 de setembro de 2017

Violência Gratuita (1997)

       Ó Alemanha...
     
       Ouvindo as falas que vêm da tua casa, rimos.
            
       Mas quem te vê corre a pegar a faca.

                                                               Bertolt Brecht

                                      

  O filme apresenta uma experiência fonética muito interessante, pois a língua alemã é provida de uma rispidez característica o qual, consoante ao comportamento supostamente passivo dos protagonistas, edifica a maldade em um patamar no qual a perversidade e o sadismo são terrivelmente  normais.
A interface biológica-eletrônica aperfeiçoará e integrará as
funções orgânicas corporais
  Nenhuma ação de violência é mostrada (exceto a morte de um dos algozes), fazendo com que toda a brutalidade seja imaginada por nós; traduzindo: somos o terceiro torturador. É por isso que você vai sentir um nó na garganta durante um bom tempo. O desfecho, ao contrário do que muitos dizem, já é esperado, porque o desenrolar das ações e a passividade dos personagens deixa-nos pessimistas; aliás, as vítimas poderiam ter reagido em muitas cenas, e isso pressupõe que o autor dirigiu críticas à moralidade contemporânea. Por exemplo, em certa parte, os psicopatas deixam a casa e as portas abertas - possibilitando uma fuga; o que o casal faz? Perde um bom tempo tentando consertar o telefone da casa. Para eles, suas vidas dependiam de um telefone móvel, uma espécie de confusão entre autonomia física e tecnologia (não é por acaso as pequisas relacionadas à interface biológica-eletrônica).

    O filme também é um pouco claustrofóbico... As cores, os personagens, a focalização da câmera. Não há como fugir. Além do mais, que atuação fantástica dos agressores! A educação sarcástica, o sofrimento e a morte encarados com banalidade. Tudo muito bem trabalhado por Haneke, o qual deixou um quê de Hannibal Lecter no personagem de Arno Frisch.
    Por fim, quando Peter leva um tiro - e nós ficamos felizes por isso - Paul pega o controle remoto, volta a cena e impede que o amigo morra. Eu tenho duas hipóteses para isso: 1- Haneke fez uma crítica à cultura marginal dos cinemas, propondo um final mais ''emocionante''. 2- O final do filme foi somente uma perspectiva de Paul; afinal, ele fez questão de mostrar que estava no comando do filme, ou seja, a morte de um dos amigos não seria interessante - o que me fez pensar que, talvez, Anna tenha conseguido salvar-se.

- Mas a ficção não é real? Então é tão real quando a realidade, porque dá pra você ver, certo?
- Besteira.