segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

A Metamorfose - Franz Kafka

Arte e Filosofia

   As primeiras concepções sobre a arte nasceram com Platão, apesar dele não a tratar como uma preocupação central. De acordo com o filósofo, a arte é imitação; imitação da realidade -que é imitação das ideias. 
  Platão tinha como criador do mundo sensível o Demiurgo, que estava em intermédio entre o mundo das ideias (Divino e perfeito) e o mundo material (falível e imperfeito). Isso quer dizer que o nosso mundo é, por si só, uma imitação. Mais tarde, o Gnosticismo retoma o conceito platônico e conclui que a única parte divina em nós é alma.
  A efeito de exemplificação, o artesão trabalha a madeira e faz dela uma cadeira, mas acontece que a ideia da cadeira é a cadeira real e a cadeira produzida é analogia; por isso, há distinção entre as diversas cadeiras produzidas. Já o artista que pinta a cadeira, reproduzindo-a em uma tela, está fazendo uma imitação da imitação.


O Expressionismo

   A vida na cidade estava diferente, o êxodo rural, revoluções socialistas, conflitos típicos entre operários e patrões, imperialismo; era a inquietude, a adolescência moderna. Não havia uma arte que desse conta dos anseios da população - e foi aí que os Movimentos de Vanguarda entraram em cena. De caráter violento e propondo uma revolução literária, o ''Manifesto Futurista'' do italiano Filippo Marinetti foi o estopim à rebeldia artística.


  Dentre as vanguardas estava o Expressionismo, movimento que visava transformar a realidade a partir das percepções internas, do sentimento artístico na hora da criação. Era do interior para o exterior. Não era uma captação da realidade e repasse para a pintura, era do conflito interior para a pintura. Era transmitir o mundo da maneira vista pelos autores, por isso as expressões faciais ganharam contornos estranhos e, até mesmo, assustadores. Era a personificação dos sentimentos.

''A Boba'' de Anita Malfatti
                                                         

A Metamorfose

  Há a impressão de que a história nos sujeita a algum tipo de metáfora, mas a verdade é que Kafka deplorava metáforas; ele não comparava a realidade, ele a metamorfoseava. Ele introduzia na realidade deformações que buscassem intensificar aquilo que se buscava retratar. Dessa forma, Franz Kafka é caracterizado no movimento expressionista e, mais do que isso, Kafka é -praticamente- o artesão do mundo literário.
  ''Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.''
  Esse é o primeiro período do livro, cuja intenção é assustar logo de cara. O decorrer da leitura é desconfortante, as sensações do inseto e a racionalidade do personagem parecem paradoxal. Num primeiro momento, a família assusta-se e, depois, passa a ter pavor da figura de Gregor - que acaba isolado em um quarto. Antes provedor da família, Gregor torna-se um problema que só termina com a sua morte. Sentimos pena do personagem e ficamos perdidos com tanta passividade da família.
  Após a transformação de Samsa, a família vê-se obrigada a trabalhar, e a presença dele passa a ser um estorvo, um nojo. Ou seja, quando válido, Gregor era útil, amável e importante; quando inválido, Gregor era um intruso, um inseto asqueroso; não é só uma crítica ao capitalismo da época, mas também é uma crítica à falta de escrúpulos e a superficialidade do ser humano perante conflitos.


  Logo após a metamorfose, o diretor da firma aparece na casa de Gregor. O motivo? Ele se atrasara pro trabalho(?). Samsa não gostava do trabalho e contia-se por causa dos pais que tinham algumas dívidas. De certa forma, a transformação foi uma liberdade pra ele. Veja bem, o ano era 1912 - pré guerra - e as relações de trabalho ainda eram muito imaturas, confusas e exploratórias; o livro leva-nos a uma viagem no tempo, ao embrião da sociedade contemporânea.